Uma rua, um almoço, uma gastrite...
O garoto caminhava.
Tarde de quarta feira.
Sinal de "PARE"!
Olhos se encontram,
Pensamentos se confundem,
Olhos se encontram.
Mesa, cadeira.
Mesas, cadeiras.
Portugal
Casal
Criança
Gato
Pureza
Nomes
Nós!
Bares, pastéis, quadros,
Risos, encontros, sexo,
Encontro...
Até breve, adeus,
Um + Um = 1
"O tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem!"
A dúvida se estabelece no momento exato em que...
Em que...
Em que...
Que dúvida é essa, besta?
Esse poema se faz por vontade própria,
Por vida,
Por ti,
Por mim..
Nós somos detalhe
Fundamental!
Somos um
Somos mil
Somos nós dois...
Um!
segunda-feira, 29 de julho de 2013
Delete
Primeiro "delete"
Censurei minha escrita
Segundo "delete"
O pensamento
Terceiro "delete"
Qualquer pensamento repetitivo!
domingo, 21 de julho de 2013
Coisa de berço
Vejo o caminho de pedra daquele meu tempo.
Vejo paralelepípedos.
Povo! Cores! Sons!
Sinto a mesma brisa
O mesmo cheiro do ar
O gosto da água
Da pinga ardida
Desardida
Adocicada.
A vida de altos e baixos
Subidas e descidas.
A visão embaçada pela neblina
No Gambá, Lavadeira, Queimada,
Minha Santa Efigênia...
Saudade de Ninica, Darwin,
Grilo, Enéias, Alemão.
Saudade de quando se dava um passo
e via, ainda que na imaginação,
Olímpia e Bené.
Vontade de dar um abraço
No Aleijadinho
E em Joaquim José da Silva Xavier.
Da lembrança
Trago à tona o melhor e o pior
Que existe em mim
E prefiro viver,
Das lembranças,
A expectativa do reencontro!
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Meu nome é Edward
Nem balada, nem bar.
Era despretensiosa e ensolarada tarde de quarta feira.
Ele não buscava nenhum Rio de maravilhas pra sua vida
Mas parece que um rio foi em sua direção, de encontro ao mar.
Era um outro rio...
Duas cadeiras e o tempo passava.
Ele nem via esse tempo.
Uma única voz importava.
Ouvia o mar e ouvia um pequeno português.
Horas...
Um chope, pastéis, chopes
A música alta não era empecilho nenhum
Para aqueles desbravadores de si
Eles - um só
Em meio a tanta gente
E nada mais importava.
Dias de descobertas, de encaixe perfeito
Havia um desbravador português dentro dele(S)
Havia uma verdade descoberta, encontrada
Pulsante, interminável
E nada mais importava.
Quando nem tempo e nem espaço importam mais
Quando nada é mais forte que o que se vive
Quando ele, firme na descoberta
Quando ele(S), um só
Quando o rio se afunila e se torna um filete de água
Quando vem a seca que quase destrói o rio
Quando vem o deserto da solidão
Quando o desespero
Quando o grito mudo
Quando a distância
Quando o amor próprio
Quando o medo
Quando a dor
Quando o vendaval que destrói
Quando a dúvida
Quando a terra treme
Quando o buraco se torna maior que se imagina
Quando parecer perder
Quando...
É quando a vida vai e sacode
E o quebra-cabeça que se desmontou por um instante
Se encaixa, se reencontra, se refaz
Mesmo que com a ponta amassada, se encaixa
Perfeitamente.
Como sempre!
Ali, naquele instante, ele se depara com ele
Se entende, se encontra
Mas a imagem está distorcida
Embaçada como o espelho em banho quente.
Ora pois...
Que não se amornasse aquela água
Que não se perdesse a graça daquele Rio
Em um rio de água levemente salgada que corre
Até molhar a boca amarga pela perda.
Enfim,
Em meio a tantas metáforas
O café esfria em minha xícara branca
E sinto cada instante dessa história.
Sentirei pra sempre cada instante dessa história.
Meu nome é Edward
E eu tenho um gato de estimação.
Era despretensiosa e ensolarada tarde de quarta feira.
Ele não buscava nenhum Rio de maravilhas pra sua vida
Mas parece que um rio foi em sua direção, de encontro ao mar.
Era um outro rio...
Duas cadeiras e o tempo passava.
Ele nem via esse tempo.
Uma única voz importava.
Ouvia o mar e ouvia um pequeno português.
Horas...
Um chope, pastéis, chopes
A música alta não era empecilho nenhum
Para aqueles desbravadores de si
Eles - um só
Em meio a tanta gente
E nada mais importava.
Dias de descobertas, de encaixe perfeito
Havia um desbravador português dentro dele(S)
Havia uma verdade descoberta, encontrada
Pulsante, interminável
E nada mais importava.
Quando nem tempo e nem espaço importam mais
Quando nada é mais forte que o que se vive
Quando ele, firme na descoberta
Quando ele(S), um só
Quando o rio se afunila e se torna um filete de água
Quando vem a seca que quase destrói o rio
Quando vem o deserto da solidão
Quando o desespero
Quando o grito mudo
Quando a distância
Quando o amor próprio
Quando o medo
Quando a dor
Quando o vendaval que destrói
Quando a dúvida
Quando a terra treme
Quando o buraco se torna maior que se imagina
Quando parecer perder
Quando...
É quando a vida vai e sacode
E o quebra-cabeça que se desmontou por um instante
Se encaixa, se reencontra, se refaz
Mesmo que com a ponta amassada, se encaixa
Perfeitamente.
Como sempre!
Ali, naquele instante, ele se depara com ele
Se entende, se encontra
Mas a imagem está distorcida
Embaçada como o espelho em banho quente.
Ora pois...
Que não se amornasse aquela água
Que não se perdesse a graça daquele Rio
Em um rio de água levemente salgada que corre
Até molhar a boca amarga pela perda.
Enfim,
Em meio a tantas metáforas
O café esfria em minha xícara branca
E sinto cada instante dessa história.
Sentirei pra sempre cada instante dessa história.
Meu nome é Edward
E eu tenho um gato de estimação.
terça-feira, 9 de julho de 2013
Sobre o amor
Hoje decidi escrever um pouco sobre o amor! Provavelmente como sempre escrevo. Mas dessa vez é diferente...
Talvez eu ame demais. E, por isso, talvez eu erre demais. Pensando nisso, há dias me recorre a pergunta: Qual a medida do amor? Não encontrei resposta ainda.
Em uma de minhas pesquisas (na verdade, a primeira que me foi eficiente), encontrei a seguinte definição: "Sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atracção; grande afeição ou afinidade forte por outra pessoa". E vejo mesmo muito disso no que penso sobre amor.
Eu quero falar sobre o amor entre duas pessoas. Quando duas pessoas se encontram e, num simples e primeiro olhar, se identificam e se amam, já, de súbito, sem duvidar. Pode ser numa fila de banco, numa boate, na padaria, numa reunião de negócios, num bar de esquina. Despretensiosamente, se fez amor. Se quis saber mais, desvendar a outra pessoa.
Um amor pode durar um minuto ou dez, uma hora, meses ou mesmo uma vida. Depende do tanto de amor que se possa dar. Mas aí me volta a pergunta lá do início: Qual a medida do amor?
Quando eu amo, eu amo pra ser pra sempre, pra ser inteiro, completo. O que não quer dizer que, enquanto ser humano, mesmo amando, eu não possa errar. E saber que qualquer outro ser humano seja susceptível a equívocos também. Mas tenho certeza que o amor é mais forte que qualquer erro, que qualquer dúvida, que qualquer orgulho, que qualquer inveja, que qualquer maldade alheia.
O amor é pleno. Amar é ser pleno com o ser amado. Amar é saber que um é diferente do outro, e buscar entender esse outro. É mais forte que a distância, é mais forte que a ausência. E, quando há ausência, o amor dói, machuca. Mas ele ainda é mais forte que a dor e prevalece!
Amar nos faz cometer loucuras. Nos faz esquecer de nós mesmos. Tem uma passagem que diz para amarmos ao próximo como a si mesmo. Mas é fato que em determinados momentos, esquecemos de nós, dos nossos orgulhos, nossos bloqueios e entregamos tudo pro e por amor. Às vezes até nos ridicularizamos por amor. Mas amamos. Amamos outra pessoa e, ainda mais, amamos o amor, amamos amar!
No fim dessa balela toda que escrevi, acho que chego a uma conclusão: o amor é livre, o amor é puro, verdadeiro, não sufoca. E eu quero isso! Pronto, o amor não tem medida para amar! Eu amo...
quarta-feira, 14 de novembro de 2012
Daquela rosa
As pétalas da rosa vermelha caíram e secaram!
Ficaram espinhos.
Furaram a pele, o coração!
Sangrou,
Irrigando de vermelho as pétalas que novamente irão nascer!
(Bruno Campelo - 14/11/2012)
sábado, 27 de outubro de 2012
27/10/12
Hoje eu chorei! Chorei muito!
Parei pra pensar em um monte de
coisas e chorei!
Doeu...
Pensei em uma história longa. A
minha!
Lembrei que sempre fui uma pessoa
que vive intensamente o amor! Gosto de viver o amor. Nasci pra isso.
A primeira história de amor, aos
quatro anos, não deu certo. A segunda, aos dez, também não. Depois, lá no auge
da puberdade, aos quinze, também não.
Dezessete anos. Intenso amor...
não deu certo também...
Aos dezoito, outra fase
começou... novo amor e não deu certo. Dos vinte aos vinte e dois deu certo. Mas
só dos vinte aos vinte e dois. Aos vinte e três, deu certo até não dar certo
mais.
Aos vinte e cinco, prefiro não
comentar.
Enfim... o que acontece é que já
apanhei muito do amor!
Muitos vão dizer: “que patético o
que ele escreve... todo mundo se dá mal no amor... isso não dá certo nunca...
não existe história feliz e duradoura entre duas pessoas... o amor é ficção...”
Desculpem-me os pensadores dessa
linha! Eu acredito no amor e nunca vou parar de acreditar.
Não é impossível entender e
encontrar uma pessoa que queira também.
Se você está cansado de sempre se
dar mal em relacionamentos, de ser traído, trocado, deixado em segundo plano
por outros objetivos da pessoa amada, de descobrir mentiras ou qualquer outra
coisa que não esteja na sua linha de pensamento, eu te entendo. Mas pode ter
certeza que não querer mais se relacionar ou achar que todas as outras pessoas que você já se envolveu
são iguais em pensamento e atitudes, você está
totalmente equivocado(a).
Abro um pouco de mim aqui!
Confesso que não sou a pessoa mais fácil de lidar. Sou ciumento sim, sou
carente sim, sou extremamente entregue quando me envolvo com alguém. Gosto de
ser/estar/viver junto. Quando me envolvo com alguém, sou de uma pessoa só. Mais
ninguém.
Não tenho nenhum objetivo em
escrever isso que escrevi. Só quero que as pessoas comecem a acreditar um pouco
mais no amor entre duas pessoas! É possível!
Já não me correm lágrimas, mas
correm pensamentos! O meu coração é doce, é sensível. Duro quando eu quero, mas
eternamente penetrável ao amor! Se meu coração escolhe amar, é pra mim e pra
outra pessoa! Para que sejamos um!
Eu acredito nisso!
quinta-feira, 16 de agosto de 2012
O AMOR PERDOA
OU
EU TE DISSE PARA NÃO ENTRAR NO
QUARTO DE VIDROS
(Peça curta em ato único, escrita por
Bruno Campelo e Thaiz Cantasini – agosto/2012)
PERSONAGENS
CARLOS – Homem de 35 anos. Bonito e sereno, embora
já tenha sofrido muito na vida.
STELA – Mulher de 30 anos. Sempre elegante e
bonita, traz consigo manias discretas, características de certo grau de
perturbação psicológica. A perturbação é crescente no decorrer da trama.
BENEDITA – Senhora muito branca, cabelos longos e
ruivos. Olheiras no rosto e ar de sofrimento.
Casarão antigo. Porta central
aberta. Na sacada, uma mulher degusta uma dose de uísque. Ao portão surge a
imagem de Carlos, que para e chama por Stela.
CARLOS – Stela? É você? Sou eu, Carlos.
STELA – (surpresa) Não é possível! (sorriso
nervoso) Carlos! Você me disse que voltaria... Quantos anos se passaram... Essa
lembrança... (ansiosa, olhando para todos os lados. Fala baixo.) Vem, Carlos.
Entre rápido!
CARLOS – Você está tão diferente! Tão linda! Uma
mulher de verdade! (pausa) Voltei para cumprir a promessa de nosso casamento.
STELA – Mas as coisas estão diferentes! Você prometeu
voltar, eu te esperei tanto tempo... Mas...
CARLOS – Mas...? Mas o que, Stelinha? Guardei meu
amor e minha promessa e aqui estou. Preciso te contar tudo o que me aconteceu
STELA – Ainda sinto o cheiro de cigarro pela casa.
CARLOS – Parei de fumar! E de beber também!
STELA – Tenho bebido tanto, mas também parei de
fumar.
CARLOS – Aquele tempo. Eram coisas da juventude.
STELA – Ainda tenho os vestidos que você gostava.
CARLOS – Mesmo?
STELA – Posso colocá-los?
CARLOS – Por favor! Deixe-me vê-la!
(baú antigo, mofo, vestido rendado um pouco menor
que a dona)
STELA – Lembra-se desse?
CARLOS – Claro que sim. Nosso primeiro encontro na
sorveteria.
STELA – Eu tão boba... E agora, quanta coisa pra
dizer! (pausa) Eu me casei, Carlos. Casei porque eu achei que você estivesse
morto, perdido... Eu errei!
CARLOS – (surpreso) Você... se casou? Não é
possível! Por que fez isso, Stela!
STELA – Eu me casei porque quando você foi embora,
deixou uma criança em meu ventre, amor.
CARLOS – Uma criança? Um filho meu?
STELA – Sim, temos uma criança! Depois que você foi
embora, começaram os primeiros enjoos!
CARLOS – Meu filho? (Carlos fraqueja, quase
desmaiado)
STELA – Amor... amor... (álcool na estante)...
Cheire esse lenço... Respire!
CARLOS – (tosse) Stela! Stela, o que está
acontecendo? É verdade o que você disse? Um filho meu?
STELA - Sei que exagerei na dose, que falei sem
preparar você! (pausa) Temos uma criança, que amanhã completa seus 13 anos... Quase
um homem. Ele tem seu nome!
CARLOS – Onde ele está?
STELA – Enganei Oswaldo! Ele resolveu cuidar de
mim. Mas eu me deixei envolver... Estava sozinha...
CARLOS – Onde está meu filho? Ele sabe quem sou eu,
Stela?
STELA – Ele está no quarto. Está muito doente.
CARLOS – O que ele tem?
STELA – Nosso filho nunca viu a luz do dia
CARLOS – O QUE?
STELA – Eu o mantive no quarto esse tempo todo porque
me sinto culpada.
CARLOS – Culpada por quê? Não é possível!
STELA – Ele se parece com você.
CARLOS – Parece? (leve sorriso de canto de boca)
STELA – Eu olhava para ele e via você, Carlos.
CARLOS – Carlinhos! Um filho meu!
STELA – Ele não foi alfabetizado, nada. Eu o criei
como um bebê, ele é meu bebê! Entro no quarto, dou as refeições...
CARLOS – Stela, me leve até esse menino!
STELA – ...e brincamos.
CARLOS – Você não poderia ter feito isso com ele!
STELA – Ele está muito doente, Carlos. Fiz porque
eu quis parar o tempo. O dele, o meu, o seu...
CARLOS – Como manter uma criança treze anos presa em
um quarto escuro?
STELA – Temos luz de velas.
CARLOS – Você está louca?
STELA – Não, amor... Fiz isso para congelar nosso
tempo bom.
CARLOS – Stela, você enlouqueceu durante esse
tempo. Isso não se faz com uma criança inocente!
STELA – Vou desencaixotar os vestidos.
CARLOS – NÃO!
STELA – Carlinhos é meu bebê.
CARLOS – Pare com essa doença. (exaltado) Leve-me
até Carlinhos já!
STELA – Você não o verá com o coração desse jeito.
CARLOS – Meu coração já se transformou no mais
lindo coração de um pai. Sou o pai, entendeu? Sou o pai!
STELA – Mas você está me culpando mais do que já me
martirizei com seu sumiço por todos esses anos.
CARLOS – Você não me respondeu! Ele sabe quem sou
eu, Stela?
STELA – Sim, ele sabe da verdade. E, por isso, vive
encarcerado. Porque Oswaldo jamais saberá do meu passado.
CARLOS – (choro emocionado. Pausa) E onde está esse
homem com quem se casou?
STELA – Ele está preso, por tentar matar Carlinhos
em uma de suas bebedeiras. Mas sou vigiada por comparsas dele
CARLOS – O que? Monstro! Vamos embora já desse
lugar, Stela! Vou cuidar de você e de Carlinhos! Vamos! Arrume suas coisas! Juntos,
vamos mostrar Carlinhos ao mundo e vamos assumir nosso filho.
STELA – Olho para você e parece que acordei de um
pesadelo.
CARLOS – Vou cuidar de você, meu amor! Carlinhos
irá conosco. Cuidarei dele também. Darei meu amor de pai! Tenho muito que
conversar com ele, contar toda a história de meu sumiço. E esperar que ele
entenda e me aceite! (olha para Stela) Você não está bem psicologicamente!
STELA – Estou bem! Muito bem!
CARLOS – Não! Não está! Não poderia ter
enclausurado nosso filho, privando-o de amizades, da luz do sol, do mundo lá
fora!
(Stela dá as mãos para Carlos e o conduz a um corredor
imenso... longo... antigo... cheiro de mofo, infiltrações. Ao fundo, uma porta
grande, trancada... ela para em frente à porta e tira a chave de um de seus
sapatos)
STELA – Este é Carlinhos. Nosso bebê! Ele irá
aprender a falar e andar com o pai.
(Carlos olha com os olhos esbugalhados. Totalmente desacreditando
no que está vendo)
STELA – Carlinhos, meu menino, este é seu pai. O que
sempre falei.
(Carlos chora muito) (Cheiro forte. Escuro. Cadáver
sobre cama)
STELA – Carlinhos, está com fome?
CARLOS – O que você fez, Stela? O que significa
isso? Você é um monstro, Stela! Um monstro! Como foi capaz?
STELA – Este é nosso menino! Ele amanhã completa 13
anos. 13 anos que ele dorme o dia todo. Ele se parece com você. Olha o
queixo... os olhos...
(Carlos olha assustado para os cantos do quarto.
Velas iluminam estantes com bisturis)
CARLOS – Eu não posso acreditar! Você chegou num
grau de loucura que não poderia estar solta nas ruas!
STELA – Hora da injeção, meu amor... Carlinhos, você
precisa aprender a falar com seu pai.
CARLOS – Stela! Essa criança está morta!
STELA – Carlos, ensine nosso bebê a falar!
CARLOS – PARA COM ESSA LOUCURA! Chega! Chega!
STELA – (exaltada) Quem está morta sou eu, com a
sua ausência. Com as surras que tomei de Oswaldo! (dócil) Só tenho Carlinhos!
Somos só nós dois!
CARLOS – Como pude guardar esse amor pra você,
Stela? Olha esse cadáver, Stela! Ele não se mexe, não respira, não pensa! Meu
Deus! Meu filho!
(telefone toca. Tensão)
STELA – São eles. Os comparsas de Oswaldo.
CARLOS – Quem?
(entra Benedita)
STELA – Benedita?
BENEDITA – Senhora, são novamente aqueles homens ao
telefone!
STELA – Eu te disse para não entrar no quarto de
vidros! Sua idiota. Diga para eles que fui fazer compras para Carlinhos. Comprar
mais remédios.
BENEDITA – Sim, senhora!
STELA – Benedita, volte aqui. Onde estão minhas
capsulas? Sinto-me cansada!
BENEDITA – Estão aqui, senhora!
STELA – Porque você nunca me deixa ver que remédios
são esses, Benedita? Sei que fazem bem, me acalmam...
BENEDITA – (Interrompendo e mudando de assunto) A
respeito do telefonema, senhora, o homem disse que chegará ao entardecer!
STELA – Carlos, você precisa ir embora!
CARLOS – Ir embora? Não irei. Não saio daqui sem
entender o que está acontecendo.
STELA – Carlos, você vai matar a minha família.
Oswaldo matará nosso bebê!
CARLOS - Que família? Você não tem família, Stela! Esse
bebê já está morto! Entenda! Nosso filho está morto!
STELA – Ele está com fome. Diga Carlinhos. Diga se
sente fome, meu amorzinho.
CARLOS – PARA
STELA – Carlos! Não!
CARLOS – (Segurando Stela pelos braços) Para, pelo
amor de Deus!
STELA – (choro desesperado) Eu vou pular essa
janela. Com Carlinhos nos braços. Agora quem vai sumir sou eu, Carlos!
CARLOS – Faça o que quiser, Stela! Só não posso
aceitar você que continue com essa loucura!
STELA - Que loucura? O que você veio fazer aqui,
Carlos? Está negando seu filho? Está negando meu amor outra vez?
CARLOS – Não Stela! Apenas não encontrei a mesma
pessoa que deixei aqui!
STELA – Carlinhos está vivo... Está vivo...
(desistente)
CARLOS – Não está! Chega! Ele está morto! Morto por
pura loucura sua! Por uma imaginação de que prendendo nosso filho dentro desse
quarto você me teria mais perto!
STELA – (caindo em si) Meu menino está morto?
CARLOS – Está morto!
STELA – Você voltou para dizer que Carlinhos está
morto...
(Carlos chora. Stela abraça o cadáver na cama,
chora compulsivamente, abraça Carlos)
CARLOS – Stela, eu sequer sabia da existência de
nosso filho! Numa mesma manhã eu descobri que tenho um filho, que ele está
morto e que a mulher que sempre amei está completamente doente. Acalme-se,
Stela! Acalme-se! Tudo ficará bem! Vamos! Você irá comigo! Nada vai te
acontecer!
STELA – Por que você foi embora, Carlos? Me deixou sozinha,
só com os vestidos e as lembranças.
CARLOS – Eu tive que fugir! Pra defender minha mãe!
Ela estava ameaçada de morte! Não pude dizer nada a você. Apenas deixar aquele
bilhete!
(batidas na
porta)
STELA – É Oswaldo! Ele saiu da prisão. Eu não
acredito. Ele irá me matar, matar você.
CARLOS – Não, Stela! Não é ninguém! Isso tudo é sua
imaginação!
STELA – Tenho medo, Carlos. Medo!
CARLOS – Oswaldo foi entregue à polícia federal e
deportado de volta a Moçambique!
STELA – Como você sabe disso?
CARLOS – Fique tranquila que nada de ruim irá te
acontecer! Estou com você, Stela!
STELA – Benedita me disse que Oswaldo está saindo
da prisão. Benedita cuida de mim. Me dá os remédios, como Oswaldo dava.
(Entram quatro homens do hospital psiquiátrico. Prendem
Stela em uma camisa de força, aplicando um calmante muito forte. Stela é
retirada de cena, desacordada)
CARLOS – Benedita! Benedita! Agora está tudo bem,
minha mãezinha! Estou de volta pra perto da senhora!
BENEDITA – Que bom menino!
CARLOS – Embora com o peito destruído por ver Stela
daquele jeito!
BENEDITA – Vamos torcer para que ela se recupere,
meu querido. Quando você foi embora, resolvi cuidar de Stela. Ela não sabe que
sou sua mãe. E menti sobre Oswaldo.
CARLOS – Sim mamãe!
BENEDITA – Oswaldo não está preso, Oswaldo está
morto. Só usei o nome dele e o medo que Stela tem dele, para evitar que ela
saísse pelas ruas. Fiz isso para protegê-la, meu querido!
CARLOS – Mamãe! Obrigado! Obrigado por cuidar de
Stela! Mas... Mas... E Carlinhos? Como foi a história do meu filho?
BENEDITA – Carlinhos não interessa. Essa história
não interessa!
CARLOS – Claro que interessa, mamãe! É meu filho! Seu
neto. Filho do mais puro e verdadeiro amor. Meu filho (choro).
BENEDITA – Carlinhos viveu até os seis anos. Stela o
manteve em cativeiro. Mantinha relações sexuais com o garoto.
CARLOS – O QUE?
BENEDITA – Por isso o nome. Por isso a loucura!
CARLOS – Que horror!
BENEDITA – Ela via você, Carlos. O menino foi um
espelho que Stela teve de você!
CARLOS – Ela é realmente um monstro. Transformou-se
no pior dos monstros! Não é mais aquela bela jovem que conheci! Meu Deus! O que
eu fiz?
BENEDITA – Ouvia os gritos do menino na madrugada.
CARLOS – Tudo culpa minha! Culpa minha, mamãe!
BENEDITA – Não, querido. Você não fez nada!
CARLOS – Eu não podia ter deixado Stela! Assim, eu
saberia que ela estava grávida e cuidaria do meu filho! Mas eu não tinha
escolha! Se eu não fosse embora, os comparsas de Oswaldo iriam matar a senhora!
Eu não poderia perder a senhora.
BENEDITA – A vida é assim, filho. Agora você está
aqui! Ela foi até os limites da loucura com essa paixão. Fez amor com o filho,
abusou sexualmente dele... Pra ela, era tudo viver ao seu lado.
CARLOS – O monstro aqui sou eu! Eu causei desgraça
pra tanta gente! Tanta mentira, tanta loucura!
BENEDITA – Oswaldo não faria nada comigo, meu
querido. Porque um filho não mata a própria mãe.
CARLOS – O que a senhora disse, mamãe?
BENEDITA – Nada, querido. Nada! Acalme-se!
CARLOS – Disse sim! Deixou a entender que
Oswaldo... Não... Não é possível!
BENEDITA – Eu disse que Oswaldo jamais faria alguma
coisa comigo. Só isso!
CARLOS – A senhora disse que ele não faria nada com
a senhora porque um filho não mataria a própria mãe. Oswaldo é meu irmão,
mamãe?
BENEDITA – Sim. E sofri muito o vendo morrer aos
poucos nas mãos de Stella, que o encontrou, viu traços seus no rosto dele...
Depois viu traços seus no próprio filho. Ela só viveu para reencontrá-lo. Em
todos os rostos!
CARLOS – Eu não posso mais aguentar!
BENEDITA – Cuidei de Stella porque vi a história se
repetir. O mesmo que aconteceu comigo quando te deixei na casa de minha velha e
boa amiga, Dolores. Eu, uma mulher abandonada e com um filho no ventre. E as
mentiras para sustentar as vidas de seus protagonistas. Pobre Oswaldo! Pobre Carlos!
Agora sinto um vazio. E sinto a velhice me tirar os suspiros finais.
CARLOS – Não, mamãe! A senhora ainda tem muito
tempo de vida! É minha linda senhorinha! E tenho certeza que se fez tudo isso
até hoje, foi para proteger seus filhos!
BENEDITA – Não sou mais aquela menina. Não tenho
mais saúde e tempo para consertar meus erros...
CARLOS – Agora me resta ter pena de Oswaldo e
aceitá-lo como meu amado falecido irmão!
BENEDITA – ...erros que cometi por amor!
CARLOS – O amor perdoa!
(Chuva rala pela janela, barulho do trem passando.
Neblina.)
FIM
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